e no fim, acho que sou equilibrista também

Saí do Brasil sabendo 0,000001% de francês…eu sabia apenas aquelas palavras básicas que absorvemos meio que sem nem saber, como: croissant, abajur, “sutiã” e por aí vai.
Lá no Brasil eu tive pouco tempo para me acostumar com a idéia do frânces e ao mesmo tempo me sentia exausta com todas as mudanças que eu esperava que acontecessem na minha vida e as que realmente estavam acontecendo. Eu tinha estágio, era monitora de cálculo 3 e 4 na faculdade, tinha aula até 23 horas todos os dias, fazia 9 cadeiras fodidas na facul, trabalhava aos sábados pela manhã também e nos fins de semana tinha que cuidar da casa toda, fazer as compras da casa, controlar as finanças, organizar a mudança, preparar comida e congelar para a semana inteira (pois o meu esposo estava com alergia e só podia comer tudo selecionadinho), estudar para todas aquelas matérias sugadoras de energia que toda engenharia sabe como ter e nos últimos dois meses antes de ir embora de São Paulo eu ainda morei em duas repúblicas longe do Wesley e vivenciando uma montanha russa emocional que me fazia chorar e chorar e chorar.
Enfim, juntando tudo isso a minha dificuldade pessoal em aprender idiomas, ao fato de que naquele momento eu não podia gastar dinheiro pagando um curso de francês para mim e que eu me achava incapaz de aprender sozinha, eu liguei o foda-se e decidi que viria para cá sem saber de nada e que aqui eu aprenderia. Toda pessoa que ficava sabendo da nossa mudança vinha com a mesma pergunta: “e o francês Raquel, já está sabendo?” e eu ficava triste e ao mesmo tempo possessa com a maldita pergunta porque meu esposo queria muito que eu me virasse pra aprender sozinha e eu sempre sentia uma decepção da parte dele por ver que eu não estava me dedicando e uma preocupação também da parte dele com o fato de eu chegar aqui sem saber falar nada. Mas eu simplesmente não dava conta… sabia que todas as atividades que eu já fazia eram o meu limite. Eu não fiquei reclamando para Deus e pro mundo tudo o que eu estava stressada e atolada, simplesmente dizia: “Não estou com medo, chegando lá eu aprendo e acredito que vai ser até mais fácil. O que eu levaria 6 meses estudando aqui, lá eu posso aprender em 1”. E eu segui com tudo o que tinha pra fazer, consegui organizar toda nossa mudança, consegui controlar nossas finanças, consegui dar minha monitoria de cálculo e dar mais de 25 aulas particulares na última semana de provas na faculdade, consegui passar em todas as matérias bonitinho e direto, consegui cuidar da alergia do meu esposo, consegui desempenhar todas as minhas atividades no trabalho direitinho, mas não consegui aprender francês…

Alguns dias atrás uma amiga minha publicou no face algumas conquistas dela e eu achei o máximo, dei meu like e fiquei com cobiça (hahahaha) da disposição dela. Hoje a mesma amiga postou em seu blog um texto, que vale super a pena ler (AQUI), a respeito daquele post do facebook sobre as conquistas. Adorei o texto, serve pra mim, serve para qualquer pessoa, me ajudou a ver que não posso fazer tudo perfeitinho e também me ajudou a ver que eu posso fazer muitas coisas se eu quiser.
Eu não mudei de idéia sobre o meu foda-se pro francês no Brasil, pois sério, eu estava no meu limite, mas em outros campos da minha vida o que eu li acabou sendo bem esclarecedor. Pelo menos não fiquei no facebook choramingando o fato de eu não ter forças para aprender o idioma… que talvez até seja o que eu estou fazendo agora, mas abafa.

Pois bem, estou morando no Quebec, estou fazendo meus cursos, escuto e estudo francês todos os dias, mas não está sendo tão fácil como meu me enganei que seria quando eu ainda morava no Brasil. Estou tendo dificuldades com a língua, estou achandi difícil, já passei por momentos de medo de falar, pânico de atender o celular, decepção ao não saber responder perguntas básicas da professora, de não conseguir formar frases simples e etc e tal. Meu esposo fica falando para eu ter calma, pois cada um tem o seu tempo. Acho uma tristeza que meu tempo seja tão arrastado. Amo essa experiência de morar aqui, adoro esse lugar e como eu já escrevi aqui no blog em outras ocasiões: estou dentro do meu sonho. Daí vem o post da amiga Lorena, daí eu fico naquela de me engano ou me desengano…serve pra mim? não serve? Mas sempre serve… intimamente eu acho que sou a lamentação em pessoa… Não só intimamente, mas os amigos mais próximos também sabem, né Cicília? Sou uma confusão de sentimentos. Sou alguém que depois de 26 anos habitando na mesma vida, se conhece demais e não se conhece. Sou alguém que exige demais de si e o pior, que sofre demais com essas exigências.

Só sei que vou imprimir o trecho abaixo e colocar no meu mural, na minha agenda ou em qualquer local onde eu possa ler sempre. Não quero ser a pessoa que só reclama e não faz nada para mudar. Mas ao mesmo tempo quero conhecer os meus limites e ligar o foda-se mais vezes.

Aí a pessoa quer fazer um curso, mas tem preguiça de acordar cedo; quer se especializar, mas não quer abrir mão de um dia do fim de semana; quer ganhar dinheiro e não trabalha pra isso (dinheiro não cai do céu, eu queria avisar pros muitos desavisados); quer que a vida dê uma guinada e passa a tarde revezando entre o computador e o soninho da tarde; quer ficar em forma, mas não quer abrir mão de nada. Tudo bem, nada contra, só não reclama, fofura. O mundo só está te dando um retorno do que você oferece.
A vida é isso: encaixe e movimento. Tem coisa que não vai dar certo e tem outras coisas que vão dar certo só porque você realmente quer. Tempo tem. Pro que você quer mesmo, tem. Mas as suas prioridades devem estar claras, só pra você não se enganar.

E esse post ficou sem sentido, talvez. Mas só quero deixar claro que não me arrependo de não ter estudado francês no Brasil. Naquela época exigir aquilo de mim era o mesmo que querer arrancar minha sanidade mental. A idéia de aprender na marra aqui valia muito mais a pena para mim naquela época e vou defender minha decisão. Pode ser que eu mude de idéia depois, pode ser que não. Estou ciente de que tenho um grande desafio nas mãos com o idioma aqui do Quebec. Mas que venha mais medo, para que eu possa vencer, que venha mais frases que eu não consiga formar para que eu possa aprender e que venha mais força para que eu não me deixe abater.

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4 comentários sobre “e no fim, acho que sou equilibrista também

  1. Querida,
    Eu vim aqui só pra te dizer que observando aqui de longe e com o mínimo de contato que tive contigo,
    Você é uma das pessoa mais batalhadora que tive oportunidade de conhecer. Não existe um
    Modelo ideal de trajetória até porque os obstáculos são diferentes., então o que serve e o que não serve é muito relativo.
    Tocando o foda se ou não, tu ta muito foda!

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