nova fase

udeminverno

Créditos da imagem, aqui!


Ainda não faz nem 2 meses que estou em Montreal, faltam alguns dias ainda, mas acho que já comecei a me sentir mais em casa. Ainda não tenho uma rotina definida pois estou aguardando as cenas dos próximos capítulos em relação a universidade. Falando em universidade, fui aceita em um programa da Udem e vou poder voltar a estudar agora em janeiro de 2016. Era uma coisa que eu queria muito e que ainda não tinha conseguido por conta do meu visto, pois inicialmente eu vim com visto de trabalho aberto e nesse cenário era inviável pagar uma faculdade, um curso técnico ou o que fosse.
Quando eu estava no Brasil eu havia criado toda uma timeline de acontecimentos na minha cabeça, porém na realidade as coisas acontecem de uma maneira diferente. Muitos imprevistos aparecem, mudar de visto é um processo que não depende apenas da gente e que consome mais tempo, mais dinheiro e mais energia do que se havia imaginado antes. Chegou um momento em que eu decidi abstrair. Ficar pensando nos meus estudos não estava me levando a lugar nenhum pois eu estava de mão atadas e aquilo só estava me consumindo por dentro. A sensação que eu tinha era que todo o meu esforço acadêmico tinha sido jogado no lixo para que eu pudesse viver a experiência de morar em outro país. E eu não posso mentir, isso rendeu muitas lágrimas no meio do caminho.
Como parte do plano de deixar o tempo passar e esperar as coisas se desenrolarem eu decidi começar a trabalhar. Depois de 8 meses morando no Québec e com um francês um pouco meia boca, diga-se de passagem, eu consegui um trabalho temporário como camareira em um hotel. Eu fazia o curso de francês durante a semana e trabalhava nos sábados e domingos. Não fiquei muito tempo lá pois eu não estava desenvolvendo em nada o idioma, uma vez que eu trabalhava sozinha fazendo serviços de limpeza, sem contato com nenhuma outra pessoa. Era apenas eu, o aspirador de pó e os produtos pra deixar os quartos limpinhos. O trabalho era bem pesado, o “camareiro chefe” (tenho certeza) passava nos quartos antes pegando as gorjetas que os clientes deixavam para as camareiras e eu sentia que eu estava trabalhando apenas pelo dinheiro, dinheiro esse que era importante, mas não tão importante quanto poder praticar a língua local.
Rodei Québec espalhando curriculos em todas as lojas possíveis e imagináveis. Antes de ir trabalhar no hotel eu já me encontrava na saga dos curriculos, mas nada aparecia. Até que eu consegui uma oportunidade em uma loja de roupas na qual trabalhei por 1 ano + ou -, e onde eu pude desenvolver bastante a fala e a escuta. Foi importante ter vivido essa experiência pois senti que meu francês deu um salto e eu conheci muitas meninas quebecoises (que trabalhavam comigo) e com isso tive oportunidade de aprender as gírias, as expressões, os costumes e o modo de pensar dos jovens daqui. Depois dessa oportunidade eu fui trabalhar em uma padaria artesanal. Na verdade eu ficava apenas na loja, trabalhava sozinha sem mais ninguém junto comigo. Eu organizava a loja, atendia os clientes, deixava tudo limpinho, fazia o caixa, trocava o dinheiro no banco, fazia abertura e fechamento de caixa entre outras funções. De todas as experiencias de trabalho que tive em Québec, essa foi a que mais gostei pois eu já estava com um nível bom de francês e o trabalho era mais tranquilo.
Agora estou em Montréal, momentaneamente sem trabalho, esperando minhas aulas iniciarem. Um frio na barriga enorme e aquelas perguntas que não saem da minha cabeça: será que eu vou dar conta? será que vai ser difícil encarar um curso universitário em outro idioma? será que vou conseguir me integrar academicamente falando com pessoas com costumes diferentes dos meus?
Cada vez que risco um dia do meu calendário mental e que vejo que o dia 5 de janeiro está se aproximando me dá um frio na barriga tão congelante quanto o frio que senti no meu primeiro ano novo em terras Canadenses.
Nossa, eu nunca imaginei na minha vida que um dia iria fazer faculdade no exterior e aqui estou eu. Claro que para isso acontecer eu tive que atrasar meus planos profissionais e minha independência financeira, mas a vida é assim e as oportunidades aparecem nem sempre no momento mais oportuno, porém quando aparecem é preciso saber como agarrar. Muitas vezes eu fico pensando “e se eu tivesse escolhido outro curso na faculdade?”, “e se nós tivéssemos tentado imigrar mais cedo?”, “e se eu tivesse ficado no Brasil e esperado eu me formar?”… e se? Eu sempre tive muitas perguntas na minha cabeça, sempre desenhei minha vida, mas minha vida em 85% dos casos apagou os meus rascunhos e criou outra coisa por cima. Estou agora tentando pensar que REALMENTE era pra ter sido assim e que é pra ser exatamente como esta sendo. Não consigo pensar assim sempre e acabo questionando a “força maior”, mas sei que se tivesse sido diferente eu não teria conhecido pessoas que foram importantes na minha historia, como meu amigos Celina Phaele e Samuel que fazem parte dos meus pensamentos ainda nos dias de hoje… como eu sinto saudades de encontrar com eles todos os dias na faculdade. Eu também não teria dividido risadas e planos na hora de comer pratinho na pracinha com a Sheyla e a Priscila. Não teria conhecido uma menina super novinha e doce como a Gisele (foi nessa época que me senti velha na faculdade), e nem tão pouco ter tido contato com professores tão bons e legais quanto o professor André, Marcos Vinícius e Jbelle. Algumas das pessoas que fizeram parte da minha vida anos atrás, na universidade, são pessoas que por incrível que pareça estão morando aqui no Canadá também, que são imigrantes como eu e que agora fazem parte da minha vida aqui, dividindo risadas em soirées, trocando presentes em natais e mensagens em grupos de whatsapp. Será que se eu tivesse ido por outro caminho a Élida, o Eder e o Icaro fariam parte da minha vida hoje? mesmo estando nós 4 aqui no Québec? Enfim, existem tantos nomes na minha história acadêmica. Nomes de pessoas, nomes de teorias físicas e títulos de relatórios. Eu TINHA que ter vivido isso, eu tinha que ter conhecido todas essas pessoas, por mais que muuuitas vezes eu pense que perdi tempo, perdi o caminho, tomei decisões erradas.

Então é isso, estou na contagem regressiva para o meu novo caminho nessa vida de imigrante. Vou voltar a estudar, graças a Deus, e espero que os frutos dos meus estudos sejam prósperos. Que eu consiga me sentir cada vez mais integrada na cultura canadense e quebecois e que eu dê conta do recado. Vou literalmente começar o ano de 2016 com vida nova, rotina nova e sonhos novos. Que venha então 2016!!! \(@ ̄∇ ̄@)/

No meio de tudo isso, queria agradecer ao meu esposo Wesley, que por mais dramática que eu seja, sempre esteve do meu lado e sempre enxugou as muitas lágrimas que eu derramei quando eu julguei que não ia mais conseguir, quando pensei em desistir, quando pensei que tinha ficado pra trás.
E queria agradecer também a minha mãe. Em muitas vezes nas quais eu virava madrugada estudando, passava fim de semana adentro com a cara nos livros, ela sempre ia deixar um lanchinho na minha mesa com um recadinho estimulante dizendo que eu ia conseguir e que teria sucesso. Eu sei que está demorando mãe, não foi bem como imaginamos que seria, mas a senhora ainda vai me ver formada… te amo muito :*